O presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou oficialmente ao cargo nesta quinta-feira (5).
O anúncio foi feito por meio de um pronunciamento em suas redes sociais, em um momento em que a Câmara dos Deputados do país avançava na tramitação de um processo de impeachment contra o mandatário.
A queda do chefe de Estado ocorre após o colapso e a liquidação extrajudicial do Banco Ueno — maior instituição financeira digital do Paraguai —, medida decretada pelo Banco Central do Paraguai (BCP) devido à insolvência do banco.
A renúncia tenta conter uma escalada de protestos nas ruas da capital, Assunção, e preservar a estabilidade institucional do país.
"Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à Presidência da República. O que faço é pensar na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas", declarou Peña em comunicado oficial.
Perda de apoio político e racha no Partido Colorado
A posição de Peña tornou-se insustentável ao longo da manhã de quinta-feira.
Embora a proposta de impeachment tenha sido iniciada por um grupo de 35 parlamentares da oposição, o Partido Colorado — legenda de direita à qual o presidente pertence — retirou o apoio ao governo.
A decisão da bancada governista de votar a favor do afastamento, respaldada pela liderança do ex-presidente Horacio Cartes, selou a derrota política do mandatário antes da formalização do trâmite no Senado.
Economista de formação, Peña assumiu a presidência em agosto de 2023.
No entanto, sua ligação pregressa com a Ueno Holding — grupo controlador do banco digital no qual atuou como acionista até março de 2025 — gerou forte desgaste sobre potenciais conflitos de interesse.
Concessão irregular de crédito e desdobramentos criminais
A intervenção da autoridade monetária no Banco Ueno ocorreu após auditorias identificarem que o índice de solvência da instituição despencou para menos da metade do patamar mínimo exigido por lei.
Investigações do Ministério Público apontam que a instituição concedeu mais de US$ 167 milhões (cerca de R$ 900 milhões) em empréstimos sem garantias suficientes para empresas diretamente ligadas ao seu próprio grupo controlador.
O escândalo levou à emissão de mandados de prisão contra oito executivos do banco e à acusação formal de 27 pessoas por gestão fraudulenta e estelionato.
Na terça-feira (3), o presidente do Banco Central do Paraguai, Carlos Carvallo — que dirigia o grupo Ueno antes de ser indicado por Peña para o BCP em 2023 —, também apresentou sua renúncia ao cargo.
Impactos na população e no comércio de fronteira
A paralisação das operações do banco digital congelou temporariamente os recursos de aproximadamente 2,9 milhões de clientes — quase metade da população do país —, provocando filas e protestos populares em Assunção.
O travamento das movimentações financeiras também refletiu no comércio da faixa de fronteira, afetando estabelecimentos em Ciudad del Este e milhares de estudantes brasileiros que dependem de transferências bancárias na região.
O Banco Central informou que acionará o Fundo Garantidor de Depósitos para ressarcir os correntistas afetados até o teto legal estabelecido, prevendo o início dos pagamentos nos próximos dias.




